Autismo é a denominação dada a um
conjunto de comportamentos derivados de um
desenvolvimento neurológico/metabólico atípico. Há
evidências de que esta diferença neurológica esteja
presente desde o nascimento (veja
Material de Apoio) ou
até um período anterior. No entanto, os comportamentos
observados – através dos quais a desordem é
diagnosticada – tendem a ser apenas detectáveis a
partir da idade de cerca de 18 meses.
A desordem atinge indivíduos de ambos os sexos e de todas
as etnias, classes sociais e origens geográficas. A
incidência é maior entre o sexo masculino (4 vezes mais
comum em meninos do que meninas). Pesquisas científicas de
estudo da desordem têm sido desenvolvidas em diversos
países, mas a comunidade científica ainda não chegou a um
consenso em relação às causas do autismo. Há fortes
evidências, no entanto, de que exista de uma predisposição
genética (Rutter, 2005), e que fatores ambientais sejam o
gatilho para o aparecimento dos sintomas. Também tem sido
sugerido que o autismo seja causado por um distúrbio da
integração sensorial (Smith-Myles & Simpson, 1998),
atrasos de maturação dos reflexos primários (Teitelbaum,
Benton & Shah, 2004), disfunção do sistema imunológico
(Pardo, Vargas & Zimmerman, 2006), ou problemas
gastro-intestinais (Gurney, McPheeters & Davis, 2006).
Os recentes números de estatísticas do autismo entre a
população dos Estados Unidos e da Europa apontam para a
existência de uma epidemia atual do autismo, com os números
de estatísticas nacionais nos EUA saltando de 1 em cada
2500 pessoas na década de 1990 para 1 caso de autismo em
cada 110 crianças em 2009 (fonte: Centers for Disease
Control, EUA). A ASA – Autism Society of America – estima
que existam atualmente 1,5 milhões de americanos afetados
pelo autismo. O mesmo quadro tem sido observado no Reino
Unido, com a incidência subindo de 1:2500 em 1993 para
1:100 em 2009. Estes números tornam a desordem mais comum
do que o câncer infantil, o diabetes e a AIDS.
No Brasil, país com uma população de cerca de 190 milhões
de pessoas em 2007, estimava-se que havia cerca de 1 milhão
de casos de autismo (fonte: Projeto Autismo do Instituto de
Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São
Paulo, 2007). O aumento dos casos de autismo no Brasil tem
sido relatado por instituições ligadas ao atendimento de
famílias de crianças com autismo em todas as regiões
brasileiras.
No passado, o autismo foi freqüentemente considerado um
distúrbio comportamental, com alguns cientistas tendo até
adotado a teoria de que o autismo era causado pelo fenômeno
das “mães-geladeiras”. Pesquisas mais modernas têm
descartado totalmente esta perspectiva. Na maioria dos
últimos sessenta anos (desde que o autismo foi
primeiramente descrito por Kanner, em 1943), a desordem foi
estudada em termos de comportamentos apresentados ao invés
do estudo do subjacente desenvolvimento neurológico. Por
conseqüência, os diagnósticos atuais ainda são feitos com
base em comportamentos observáveis, o que significa um
atraso na elaboração do diagnóstico na maioria dos casos.
Recentes pesquisas com o foco na identificação de
características neurológicas do autismo têm sido
desenvolvidas com o objetivo de auxiliar o processo de
diagnóstico, a intervenção precoce e recuperação.
Nos dias de hoje, o Autismo é freqüentemente referido como
Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), nomenclatura que
indica uma ampla variação na sintomatologia. Crianças com
os diagnósticos de Transtorno Invasivo do Desenvolvimento
ou Transtorno Global do Desenvolvimento (TID, ou a sigla
PDD em inglês), Transtorno Invasivo Não Especificado do
Desenvolvimento (sigla PDD-NOS em inglês) ou Síndrome de
Asperger tendem a exibir comportamentos similares em um
nível moderado.
Os comportamentos que geralmente levam ao diagnóstico do
Autismo ou Transtorno do Espectro do Autismo são
comumente classificados em três pilares. Estes descrevem
dificuldades nas seguintes áreas:
- Interação Social
- Comunicação e Linguagem
- Comportamentos repetitivos e de auto-estimulação
(incluindo-se aqui os interesses restritos e
dificuldades na área de imaginação)
O que os comuns critérios de diagnóstico falham em
reconhecer são as habilidades e talentos exibidos por
pessoas diagnosticadas com autismo. Há diversos relatos
científicos e anedotários sobre habilidades incríveis que
várias pessoas com autismo possuem. Em uma das extremidades
deste espectro encontram-se as pessoas que são referidas
como “savants”, as quais apresentam habilidades
extraordinárias, geralmente nas áreas de matemática, música
ou arte. (Happe, 1999).
Já os milhares de pessoas com autismo que não desenvolvem
habilidades de “savants”, também possuem diversas
habilidades especiais. Muitas pessoas com autismo
apresentam habilidades de percepção viso-espacial altamente
desenvolvidas (em Happe, 1999). Nós já trabalhamos com
crianças de 5 anos de idade capazes de montar um
quebra-cabeça de 500 peças em questão de minutos com o lado
da figura virado para baixo. Outras pessoas com autismo são
capazes de memorizar uma cena na rua para depois, em casa,
desenhar a cena com os mais minuciosos detalhes (ex: Steven
Wiltshire).
Um grande número de pessoas com autismo, numa proporção
maior do que na população que não apresenta autismo, possui
ouvido absoluto – a habilidade de identificar uma nota
musical ouvida. Há outros casos de pessoas com autismo que,
assim como o personagem do filme “Rainman”, são capazes de
fazer cálculos matemáticos extremamente complexos. Nós
também trabalhamos com crianças que, aos 4 anos de idade,
eram capazes de multiplicar 2 números de 3 dígitos cada em
suas “cabeças”. Estas crianças não haviam recebido nenhum
treinamento em matemática, mas haviam apresentado esta
habilidade em idades precoces. A mãe de um adolescente com
quem trabalhamos relatou que seu filho havia começado a
aprender matemática sozinho aos dois anos de idade, e que
aos cinco já se divertia solucionando problemas de cálculo.

Inspirados pelo Autismo vê cada
criança em sua totalidade ao invés de focar apenas nas
dificuldades da criança. Ao valorizar os talentos e
motivações da criança você pode ajudá-la a superar
suas dificuldades. Isto é amplamente aceito na
educação de crianças de desenvolvimento típico. Esta
noção tem sido ignorada em abordagens educacionais ao
autismo, onde procura-se afastar a criança de seus
interesses e habilidades adquiridas por serem
consideradas “obsessões”. Estas habilidades têm sido
consideradas de alguma forma danosas à criança,
chegando-se à adoção de medidas extremas (ainda
presentes em algumas terapias) para afastar as
crianças de seus interesses, incluindo-se choques
elétricos e jatos de água.
A velha perspectiva tem visto o autismo como uma desordem
comportamental. Como conseqüência deste pensamento, as
abordagens têm focado na mudança do comportamento, tentando
eliminar os chamados comportamentos atípicos. A nova linha
de pensamento vê o autismo como o desenvolvimento
resultante de um sistema neurobiológico programado para
operar de forma diferente. A conseqüência desta nova forma
de pensar o autismo é a terapia que busca oferecer um
ambiente físico e social que leve em conta esta diferença
biológica e que promova o aprendizado e o bem-estar de cada
criança.
Profissionais de abordagens relacionais como a do
Programa Son-Rise têm
visto durante as últimas três décadas que a aceitação
e apreciação das atividades e interesses da criança
auxilia na construção de uma ponte que pode levar à
interação social com uma criança com autismo. Através
da interação social, muitas outras habilidades podem
ser aprendidas pela criança. Atuais estudos
científicos demonstram o valor desta abordagem (veja
Material de Apoio, ex:
Dawson & Galpert, 1990; Kim & Mahoney, 2004;
Mahoney & Perales, 2005 e Trivette, 2003).